Pois bem, de onde estava pude ver o menino se sentar e sofrer, chorando as mais sentidas lágrimas que um ser humano poderia chorar. Ele tentara rebater aquelas calúnias sobre suas fadas, porém, o adulto que gritava não lhe dera chance alguma de defesa. “Como pode achar que tal criatura existe? Menino tolo! Não me faça perder tempo com suas tolices”. Era o que ele gritava.
E frente à leitura que fazia daquela cena entendi, ou quis assim entender, que aquele deveria ser o pai, endurecido por mais um dia naquele mundo que há muito deixara de tratá-lo bem.
Queria culpá-lo, queria sentir raiva pela sua insensibilidade para com o garoto que, pela semelhança, deveria ser seu amado filho. Porém, por mais que eu quisesse odiá-lo por todo aquele rancor sobre o menino, não pude fazê-lo porque eu sabia que alguém, anos antes, havia lhe dito o mesmo, talvez não sobre suas fadas, mas sobre seus gnomos ou duendes, e esse alguém havia lhe tirado a mágica que o impedia de ver completamente o mundo que o cercava.
Os humanos são criaturas estranhas, e ainda mais é o mundo que construíram para si : Um mundo repleto de complicadas regras e de curiosas normas, que de um modo irônico integra na mesma proporção em que separa e segrega.
Parecem ter nascido da desilusão, estes humanos, e parecem ser guiados por ela, ao menos a maioria deles. Cada um constrói suas próprias desilusões e alguns até mesmo se enterram com elas.
Porém, há uma minoria , uma estranha e silenciosa minoria que ainda acredita, que ainda vive por algo que não se resume a eles próprios.
Essa minoria ainda se anima com pequenos e curiosos eventos que se passam, eles sonham com seu mundo e por algum motivo ainda julgam ter o poder de ver seu sonho realizado. Essa minoria não desconhece a dor e muito menos os maus presságios, mas eles prosseguem com uma luz estranha e quente, que os levanta e os faz vivenciar a vida ao invés de apenas passar sorrateiramente por ela.
E tal resolução me atingiu enquanto estava ali sentada, próxima àquele rio , observando o menino secar suas lágrimas.
Ao vê-lo entendi que ele não chorava por suas crenças quebradas. Não. Ele chorava pelo seu pobre senhor, que tudo lhe dava, mas que, de tão cansado da existência que a realidade lhe dera, se esquecera de que a verdadeira existência baseava-se, aparentemente, em coisas infundadas.
Isso porque, quando os olhos do menino me focaram compreendi que o mundo, de alguma maneira sensata, tentava curar a si mesmo, gerando pessoas que acreditavam pelo simples fato de acreditar.
E mesmo sem realmente me ver, o menino sabia que eu estava lá, sentada passivamente observando a correnteza , prestes a ignorar a existência de minhas próprias envelhecidas amigas fadas.
Escrito por Natalia Nunes
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